segunda-feira, 24 de novembro de 2008

do sentir sen.tidos...



“todo mundo sabia tão pouco na época. eu sei ainda menos agora.


...é como nos anos sessenta, mas com menos esperança...




sabe como começou? ...eu morava numa cidade pequena, não sabia para onde ir. eu esperava do lado de fora... e esperava alguém sair... foi assim...

então foi por escolha?

sim, eu adorava na verdade. eu sabia exatamente quanto eu valia, sabe? exatamente o que eu tinha para contribuir.
eu olho para as coisas que eu escrevia quando tinha doze anos de idade, e eu ainda quero as mesmas coisas.

... você tem tanto!

eu sei. eu vejo ao meu redor, mas pára na minha pele. eu não consigo deixar entrar. sempre foi assim! sempre vai ser assim. eu consigo sentir em apenas alguns momentos... porque ele me ama tanto. ele me ama tanto quanto as pessoas que me trataram mal. eu não consigo sentir! você não vê que não quero ser assim?
é difícil não sentir nada na vida!
’”

(shortbus, escrito e dirigido por john cameron mitchell)


fê, sen.tidos

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

do escafandro...



"decidi não sentir mais pena de mim mesmo. dei conta de que há duas coisas que não estão paralisadas além de meus olhos, minha imaginação e minha memória. são os meios que me permitem sair de meu escafandro. posso imaginar qualquer coisa, pessoa e lugar. deixo-me ser acariciado pelas ondas nas ilhas de martinica, um encontro amoroso com a mulher que amo... posso imaginar qualquer coisa. na infância sonhei com minhas habilidades como adulto, minhas ambições de adulto. agora quero me lembrar de como eu era..."


(le scaphandre et le papillon - o escafandro e a borboleta, de julian schnabel, baseado em livro de jean-dominique bauby)
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fê, escafandrista

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

pontos e larmes...


eis que um bom moço aproximou-se... ele é capaz de ver tantos "pontos"... e é de uma sensibilidade incrível... de uma entrega corajosa... de um bem-querer imenso...

ele por vezes questionou-me dos meus pontos blogais, pois é... fiquei de falar sobre eles um dia... eis que vim "pontu.ar" sobre... não tenho uma idéia "fechada" ou "fachada" sobre, e talvez isso explique os pontos... as reticências horizontais e verticais... por vezes penso que é por aprender que é preciso deixar sempre algo um tanto aberto... dar espaço para outras coisas... pela idéia de continuidade e pela idéia de que coisas estão ali, ainda que não esboçadas... enfim, talvez um tanto da aprendizagem e das atuações conscientes para que assim seja...
mas um tantinho de man ray com lágrimas tão pontu.ais... me fazem sentir que elas podem traduzir um tanto do que meus pontos podem simbolizar... um tanto dos pontos em mim...

para esse moço que hoje sopra velinhas para comemorar seus dias no mundo, deixo aqui o registro de feliz.idades e meu desejo de que sempre tenha o colo que acolhe com bom afeto as pessoas, a música, a arte, o verde, o abraço, a voz, as letras e que ainda é capaz de comemorar a vida...
parabéns moço...
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foto: man ray - larmes, 1932...
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"lágrimas são as pedras preciosas da ilusão"
(paulinho da viola)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

mais um lamento...


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“é em vão que tua imagem chega ao meu encontro
e não me entra onde estou, que mostra-a apenas
voltando-te para mim só poderias achar
na parede do meu olhar tua sombra sonhada.

eu sou esse infeliz comparável aos espelhos
que podem refletir mas que não podem ver
como eles meu olho é vazio e como eles habitado
pela ausência de ti que faz sua cegueira”
(contre-chant, em fou d’elsa, de aragon)

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...'meu grito aqui de longe... minha dor... meu lamento'...

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e o meu desejo de feliz.idades...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

...aos ressabiados...

“...mas as coisas estão tão esquisitas hoje em dia... incrível!

a gente anda ressabiado de dizer que gosta das pessoas... então a gente inventa coisa, entende? a gente inventa que é tímido... e que não encontra jeito de dizer. a gente inventa que está ocupado e que um dia, sei lá, vai ter tempo de sentar e conversar... de repente, você se toca que não tem mais nada pra ser feito... é tarde paca!
quero dizer, eu não acho que seja tarde, entende? porque eu acho que as coisas não se acabam aqui. isso aqui é... a gente vem pra cá pra isso mesmo: pra ficar aqui fazendo coisas... acrescentando uma bagagem grande pra gente e pras pessoas... e transar uma vida melhor...

realmente é muito triste... as pessoas só saberem que a gente gosta delas depois que elas se foram."

(entrevista do DVD "elis regina, 1973 mpb especial")

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fê, des-res.sabi.ando...

domingo, 14 de setembro de 2008

do sertão...

a figura que marca a geografia da época é o deserto...
...é a “era do vazio” (lebowski)...

vive-se numa sociedade do “futilitário”, isto é, do lixo que o homem produz e não sabe o que fazer com ele...
...quer-se objetos e precisa-se objetivar tudo...!

num mundo globalizado... e virtual dos computadores... se está cada vez mais sem fio (leia-se “fio”: ligação)...
é a era das relações virtuais, em que pessoas já não se encontram... eis a relação “autística”...
é uma globalização que provocou crises na identidade... o sujeito já não sabe quem é, tampouco ao que pertence. propõe-se a globalização e eis que se tem a individualização...

... é a sociedade narcísica... do piercing no próprio umbigo...

os sintomas atuais (toxicomania, bulimia, anorexia, vigorexia, solidão) já não são caracterizados pela proibição e pela transgressão, tais quais as histéricas de freud, mas sim pela busca do grupo e da identidade como forma de laço, dado que não há mais “pai” para regular as re.lações. os sintomas atuam para dar identidade ao sujeito globalizado que está sem pátria.
nos crimes atuais, por exemplo, nota-se a imensa quantidade de crianças maltratadas... não se mata mais o “pai”, mas sim os filhos.

lacan diria que estamos vivendo numa infância generalizada... não há mais pessoas adultas, responsáveis pelo seu sofrimento, seu gozo...! estão infantilizadas e reduzidas ao objeto.

o comando pelo nome do pai, de outrora, já não existe. no segundo capitalismo ou pós-modernidade (pós 50)... mudanças nas relações deram-se caracterizadas no mercado de consumo, pelo incentivo descomedido para consumir. as relações aparecem então reguladas pela lógica do mercado.

o “outro” contemporâneo é o da demanda, não o do desejo.

os sujeitos comandam os objetos e são comandados por eles:
“ipode”... não pode...!

multiplicaram-se os ideais! vivemos na sociedade da morte e do edonismo...
morte: “matar-se” de trabalhar... suicidar-se...
edonismo: bem-estar, obrigatório (é proibido sofrer); bens de consumo... “meu-bem” de consumo... meu bem dá consumo...; ser feliz, pois não é permitido ser triste.

há sempre o “remédio para o mal” (cura rápida do sintoma e a promessa de felicidade)
e há o “mal para o remédio”...
... crê-se que os sintomas precisam ser eliminados rapidamente, sem questionamento. não se questiona a compulsão e as próprias patologias que são as do consumo.

e numa sociedade em que todos devem ser felizes, eis a depressão...
e numa sociedade em que todos devem estar no mundo, eis a síndrome de pânico.

ora, o inconsciente governa e determina o sintoma...
ainda assim, o saber inconsciente é rebaixado, desqualificado.

o sujeito do inconsciente é apoiado na experiência do saber... de um saber não sabido, um saber que não sei que sei.

a psicanálise é o lugar para a palavra... a chance de sair de objeto para sujeito...
de saber do ser comandando pelo inconsciente e sobretudo então comandá-lo.

a causa do sintoma tem a ver com o desejo... deve-se buscar ouvi-lo, entender o que quer dizer.

o sujeito que diz não a psicanálise é o que não quer saber sobre si.

freud mostra que há o inexplicável... que não somos detentores do saber... ora, eis então: “do que se trata?”
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“sertão é dentro da gente” (guimarães rosa)
ser.tão é dentro da gente...
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fê: desert...ando no ser.tão


(de "ssss" gualcinéia gomes e um tanto do que me veio)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

...do:r coração de pedra...

















"tinha cá pra mim
que agora sim
eu vivia enfim o grande amor
mentira
me atirei assim
de trampolim
fui até o fim um amador
passava um verão
a água e pão
dava o meu quinhão pro grande amor
mentira
eu botava a mão
no fogo então
com meu coração de fiador

hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor
mentira

fui muito fiel
comprei anel
botei no papel o grande amor
mentira
reservei hotel
sarapatel
e lua-de-mel em salvador
fui rezar na sé
pra são josé
que eu levava fé no grande amor
mentira
fiz promessa até
pra oxumaré
de subir a pé o redentor

hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor
mentira"
(samba do grande amor - chico buarque / 1983)



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fê, "hoje...tenho apenas uma pedra no meu peito...
mentira"...